Entre bares, farmácias e músculos
Houve um tempo em que os bares eram numerosos. Em cada esquina havia um botequim, em que se podia tomar umas e botar a conversa em dia. Depois veio a fase das farmácias, um dos sinais de que a nossa sociedade não andava bem. Quando precisamos de mais drogarias do que de bares é um indicativo de que o ser humano está mais dependente de remédios do que de convivência.
Um exemplo disso aconteceu no centro da cidade, quando o Bar do Zé Inocêncio, recanto de música, cultura e chope gelado (sem falar no inesquecível beirute com rosbife de verdade), deu lugar a uma unidade da Droga Raia. No começo, era para ser a Casas Bahia, mas daí acharam que o espaço era pouco. A loja acabou se instalando mais para cima, mas fechou em poucos meses –aliás, o grupo acaba de pedir recuperação judicial. Isso foi em 2007.
Algumas farmácias ficaram, outras fecharam, principalmente as pequenas. Éramos jovens e menos apegados a medicamentos. Agora, para todos dessa geração, a conta da drogaria já está ficando mais cara que a conta no Tadao, mas isso faz parte da vida. Há bares que resistem ao tempo, e o Tadao, há anos sob a direção do Emerson, é prova disso. Mas a efemeridade de botecos é grande, talvez porque não consigam cativar a clientela.
Ou talvez porque a turma está migrando para as farmácias, é claro, mas sobretudo para o novo eixo econômico em expansão. O prezado leitor e a querida leitora já sabem do que estou falando. Elas, as academias de musculação, crescem a um ritmo exponencial, só comparável ao das clínicas que vendem canetas emagrecedoras. Vagou um galpão e a gente vai logo imaginando quando começam a chegar os aparelhos, as esteiras e os grandes espelhos.
Trocamos o balcão de fórmica pelos halteres emborrachados. Se antes a sociabilidade se dava entre cervejas e pratinhos com azeitona, hoje ela ocorre entre uma série e outra, enquanto se reveza a mesma cadeira extensora. O brasileiro, que já usou a mesa de bar para salvar a alma e a drogaria para remediar o corpo, parece ter descoberto que a malhação é o novo templo da salvação. Cuidar de si virou o investimento da vez, e o mercado, perspicaz como sempre, não demorou a transformar o esforço físico em um estandarte de status e longevidade.
Afinal, a própria Organização Mundial de Saúde tratou de atualizar as definições de saúde, decretando que estar bem vai muito além da mera ausência de enfermidades. Ela precisa ser integral, englobando o bem-estar físico, mental e social –uma brecha perfeita para que a esteira recupere o direito de deixar de ser cabide. Ir à academia tornou-se o equivalente moderno de espairecer no boteco após um dia extenuante. A diferença crucial reside na ergonomia do gesto: sai o ritualístico levantamento de copo, entra o rítmico e dolorido levantamento de peso. O estresse continua sendo descarregado, mas agora sob o olhar atento de um professor de educação física e ao som de uma música motivacional.
As farmácias, é claro, não assistem a essa transição de braços cruzados, pois bobas nunca foram. Percebendo a migração do rebanho, reconfiguraram suas prateleiras para capturar o atleta de ocasião, antes e depois do treino. Hoje, ao lado dos analgésicos para as dores do dia seguinte, repousam destaques cintilantes de whey protein, creatina, barras de proteína e isotônicos. O ciclo mercadológico se fecha com maestria: consome-se o suplemento da drogaria para aguentar o treino na academia, mantendo acesa a engrenagem que alimenta tanto a busca pela forma perfeita quanto à nossa paixão irremediável por comprimidos.
Taquaritinga está ganhando várias academias, o que é louvável. Torço para que demonstrem musculatura suficiente para não sucumbirem à mesma efemeridade que levou o nosso Zé Inocêncio e tantas drogarias de bairro. A julgar pela multidão que já se enfileira na catraca a partir das cinco da manhã, fôlego não vai faltar. Se tudo der certo, em um horizonte não muito distante, teremos uma população repleta de músculos salientes, postura impecável e mente em paz. E se a cabeça falhar ou a coluna reclamar do leg press, não há com o que se preocupar: haverá sempre uma farmácia na próxima esquina, pronta para nos vender a solução, em gotas ou em cápsulas.
(Imagem gerada por IA)












