Pelo direito à conversa fiada
Está difícil, muito difícil jogar conversa fora nesses tempos bicudos. Até no bar o exercício dessa arte ficou comprometido pelas circunstâncias. A política nacional já era assunto proibido para evitar brigas entre quem gosta da esquerda e quem gosta da direita. Até a cloroquina e a ivermectina, veja só, voltaram ao centro da roda e podem render grandes tretas.
Se a política é um campo minado, há um bom tempo que a pauta local virou um apocalipse particular. Não dá para falar de um assunto de somenos relevância, diante dos últimos acontecimentos. Quem tenta puxar papo furado pode ser acusado de alienação ou acabar falando sozinho. “Poesia numa hora dessas?”, perguntam com ar de seriedade.
Todo mundo acha que tem o remédio para tirar a cidade do apuro financeiro em que foi metida –a boa notícia é que essa não é a primeira vez, sempre é bom olhar pelo lado positivo. Tirando uma ou outra, as fórmulas prontas são as mais alucinadas possíveis. Oscilam entre o milagre e a demência. Chegou-se até a dizer que a solução seria o fechamento da Prefeitura por seis meses, o que acarretaria deixar alunos sem aula e doentes sem tratamento.
A natureza resolveu entrar no debate com o pé na porta e pedras, muitas pedras, na janela. A tempestade histórica de outro dia agravou ainda mais a situação, que agora, oficialmente, é de emergência. Passamos a semana falando dos danos e prejuízos, com comentários sobre a cada vez mais perceptível fúria da natureza, que estaria apenas nos devolvendo na mesma moeda décadas de maus-tratos.
Acusamos o Super El Niño de ter provocado o vendaval, mas fomos desmentidos pelos meteorologistas de plantão. Suas consequências ainda estão por vir, segundo eles. Se for “somente” em forma de seca, estaremos no lucro.
Reivindicamos, portanto, a volta do nosso direito à conversa fiada sem sermos tachados de desalmados, de ter uma pedra no lugar do coração. Porque ultimamente só os temas importantes dominam as rodas, ainda mais com o fim da Copa do Mundo e o CAT longe de qualquer campeonato.
Um simples encontro na esquina se torna um momento para destilar uma certa desolação em torno do futuro da cidade. Nem a Festa do Peão escapou das críticas. Se o taquaritinguense já era um pessimista vocacionado, agora desandou de vez.
Da minha parte, esse reles mortal que só pede um pouco mais de descontração, faço uma reivindicação humilde ao tribunal dos homens sérios: devolvam-nos o direito ao assunto sem o qual o mundo continua tal e qual. Deixem-nos falar de futebol, da florada dos ipês e das pequenas bobagens diárias, sem que isso nos transforme em monstros sem alma.
A vida já é grave demais para ser levada a sério em tempo integral. E, convenhamos, perder a capacidade de jogar conversa fora é o melhor caminho para a depressão. Quanto à cidade, já vivemos crises piores e saímos, não necessariamente ilesos, mas mais calejados. O que não podemos é perder a esperança.
(Imagem gerada por IA)












