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Imprensa sem humor

De vez em quando alguém chega com a ideia —sem trocadilho— mirabolante: Vamos ressuscitar o “Incitatus”? De pronto, refuto a proposta com argumentos robustos. Primeiro, o herdeiro do título é o colega jornalista Hamilton Aiello, sobrinho do Luiz Mirabelli. Hoje o humor sarcástico do “jornalista irresponsável” e criador do periódico mais irreverente do interior paulista seria alvejado por ações judiciais. Por último, o jornal não fazia tipo, mas refletia o estilo de vida de seu redator. Só quem vivia como Mirabelli, dono de uma liberdade sem par nessas matas, seria capaz de fazer circular um conteúdo como aquele.

O “Incitatus” nasceu nas páginas do diário “Cidade de Taquaritinga” antes de pular para a casa vizinha, na Marechal Deodoro, que funcionava como redação e casa do “tio Lula”, aberta 24 horas para os amigos e fechada para quem ele não gostava. Tive a satisfação de desfrutar da sua amizade mais intensamente na sua última década de vida e com ele conversar e beber até altas horas da madrugada –em ambas as modalidades ele ganhava de goleada. Da minha geração, quem mais conviveu com o Mirabelli foram o Chiquinho Rodrigues e o Luiz Fabiano de Oliveira, que paginaram inúmeras edições –coisa que só fiz uma vez.

Jornais e revistas satíricos existem no mundo todo, mas saíram de moda. O mais notório no Brasil foi o semanário “O Pasquim”, famoso por seu papel de oposição à ditadura militar e pela contracultura nos anos 1960 e 1970. Era tocado por um timaço, que tinha entre suas estrelas Tarso de Castro, Jaguar, Ziraldo e Millôr Fernandes. Fechou as portas em 1991, embora tenha havido uma versão em formato de revista, entre 2001 e 2004, sem o mesmo sucesso.

Em 1966, três anos antes da fundação do “Pasquim”, o “Nosso Jornal”, do qual fui editor-chefe, lançou a coluna “O Tesourinha –uma coluna a serviço das más línguas”. Retomei essa seção em meados da década de 1990, e juro que me surpreendi com o resultado. A gente fazia grandes reportagens, que exigiam trabalho exaustivo, mas o que os leitores comentavam era alguma nota engraçada do “Tesourinha”. Exerci ali meu alter ego durante muitos anos, e foi muito bom. Hoje, porém, não sei se uma coluna do gênero iria muito longe.

Curiosamente, o humor nunca esteve tão em alta nos palcos. Os artistas de stand-up arrastam multidões, lotam teatros e transformam observações do cotidiano em espetáculos de grande sucesso. Aliás, o casseta Hélio de Peña estará por aqui no mês que vem, prova de que o público continua disposto a rir de si mesmo e das circunstâncias que nos assolam. O paradoxo é que a comédia na imprensa, que José Simão e Tutty Vasques souberam modernizar com talento e irreverência, parece ter perdido espaço justamente numa época em que o noticiário político frequentemente se confunde com uma piada de mau gosto.

É uma contradição que não sei explicar. Talvez os tempos tenham mudado, com a velocidade das redes sociais substituindo a espera pelo comentário espirituoso do jornal. Talvez as suscetibilidades tenham aumentado e feri-las seja punido pela política do cancelamento. O fato é que não consigo imaginar o “Incitatus” ressuscitado com a mesma pegada de humor peculiar, crítica social e absoluta falta de cerimônia que Mirabelli imprimia em cada edição. E confesso que tenho minhas dúvidas se um “Tesourinha” afiado, circulando hoje, conseguiria atravessar incólume o campo minado das indignações permanentes.

Ainda assim, não sou dos que acreditam no fim do humor inteligente. As fórmulas mudam, os veículos se transformam e as gerações renovam suas linguagens. O que me parece impossível é repetir Mirabelli, porque o jornal era, antes de tudo, uma extensão do homem que o fazia. Mas espaço para novas experiências certamente existe. Afinal, convenhamos: em matéria de personagens, absurdos, vaidades e situações risíveis, a realidade brasileira continua sendo uma fonte inesgotável de inspiração.

(Imagem gerada por IA)

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