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Por Marcus Rogério de Oliveira*

Queridos leitores, na semana passada falamos que o mundo precisa de software. E precisa mesmo. O software deve entrar, de forma cada vez mais concreta, nas casas, nas cidades, nas lavouras, nas fábricas, nos robôs e nos objetos do cotidiano.

Em maio de 2026, dois movimentos chamaram muito a atenção de quem acompanha tecnologia de perto: o avanço do chamado vibe coding e o crescimento da IA agentic. O vibe coding é essa nova forma de criar software em que uma pessoa descreve, em linguagem natural, aquilo que deseja construir, e ferramentas como Claude Code, Cursor e outros ambientes com inteligência artificial ajudam a gerar códigos, telas, funções e protótipos para serem validados e testados por especialistas em engenharia de software. Já a IA agentic dá um passo além, pois não se limita a responder perguntas ou escrever trechos de código. Ela planeja, executa tarefas, testa alternativas, corrige erros e segue objetivos com maior autonomia.

Um dos alertas mais interessantes desse período veio de Simon Willison, que destacou a aproximação entre o vibe coding e a engenharia agentic. Ele quis dizer que estamos entrando em uma fase em que os agentes de IA não apenas ajudam a programar, mas passam a participar de etapas inteiras da construção de sistemas. Eles podem sugerir arquitetura, criar testes, revisar partes do código, integrar serviços e acelerar muito a transformação de uma ideia em algo funcional.

Existe também uma outra camada dessa revolução que merece atenção: a chamada Physical AI, ou inteligência artificial aplicada ao mundo físico. Modelos recentes voltados à robótica, como o GENE-26.5, da Genesis AI, apontam para um futuro em que robôs poderão realizar tarefas físicas cada vez mais complexas, envolvendo percepção, movimento, manipulação de objetos e adaptação ao ambiente. A direção é clara: a inteligência artificial também está influenciando máquinas, equipamentos, sensores, drones e robôs.

E o que isso tem a ver com Taquaritinga, com o interior paulista e com a nossa realidade? Tem tudo a ver. Quando falamos que o software estará em tudo, não estamos falando apenas das grandes empresas do Vale do Silício. Estamos falando de drones agrícolas para citricultura, sensores em propriedades rurais, sistemas de manutenção preditiva em indústrias de alimentos, plataformas inteligentes para prefeituras, automação residencial, pet techs, robôs de apoio em serviços, soluções para logística, segurança, saúde e gestão pública.

O interior de São Paulo tem agricultura forte, indústria, comércio, serviços e cidades que precisam se modernizar. Há um campo enorme para quem souber transformar problemas reais em soluções digitais inteligentes. E é exatamente nesse ponto que instituições como a Fatec de Taquaritinga ganham ainda mais importância. Formar profissionais de Análise e Desenvolvimento de Sistemas não é apenas ensinar alguém a programar. É preparar pessoas para entender problemas, estruturar soluções, trabalhar com dados, construir sistemas, integrar tecnologias, aplicar inteligência artificial e entregar software com responsabilidade.

É importante deixar isso muito claro: o vibe coding e os agentes de IA não eliminam a necessidade de profissionais da computação. Pelo contrário. Eles tornam esses profissionais ainda mais necessários. Uma pessoa sem formação técnica pode até criar um protótipo, uma prova de conceito ou um MVP usando IA. Isso já é possível e será cada vez mais comum. Mas colocar um sistema em produção é outra história. Software usado em aplicações reais precisa ser seguro, escalável, confiável, testado, documentado, integrado e preparado para lidar com falhas, ataques, dados sensíveis e usuários reais.

Quando um sistema controla uma máquina, um processo industrial, uma operação agrícola, uma decisão financeira ou um robô físico, o risco aumenta. Não basta a IA “parecer” que sabe fazer. É preciso engenharia. É preciso arquitetura. É preciso segurança cibernética. É preciso banco de dados bem modelado. É preciso testes, governança, observabilidade e responsabilidade técnica. É aí que entram os profissionais formados na área: não como meros digitadores de código, mas como arquitetos e guardiões dos sistemas inteligentes que passarão a fazer parte da vida das pessoas.

A grande oportunidade está justamente na combinação entre criatividade e competência. A IA pode acelerar ideias, reduzir barreiras, democratizar protótipos e permitir que mais pessoas participem da criação de soluções. A transformação de uma boa ideia em um produto real continuará dependendo de profissionais preparados. No interior paulista, isso pode significar novas startups, novos projetos de agro 4.0, indústria 4.0, novas soluções para pequenas empresas, novas plataformas para cidades inteligentes e novas parcerias entre faculdades, empresas e comunidade.

E, nesse cenário, a formação em tecnologia deixa de ser apenas uma opção profissional interessante. Passa a ser uma das bases para o desenvolvimento das cidades, das empresas e das pessoas. A IA pode até escrever código. Mas ainda precisaremos, e muito, de gente preparada para transformar esse código em futuro.

 

*Marcus Rogério de Oliveira é um renomado professor da Fatec de Taquaritinga, onde leciona desde 1995. Com um extenso currículo acadêmico, é Doutor em Biotecnologia pela UFSCar, Mestre em Ciência da Computação pelo ICMC-USP e Bacharel em Ciência da Computação pela Unoeste. Sua vasta experiência o tem levado a atuar em áreas como Banco de Dados, Desenvolvimento de Sistemas, Engenharia de Dados e Ciência de Dados.

 

(Imagem gerada por IA)