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Só o que importa

Na minha longa passagem pelo jornalismo diário, a preocupação que me assolava era pautar assuntos que tivessem a ver com o cotidiano da cidade. Mais do que isso: matérias que pudessem ajudar o leitor a tomar uma decisão, a mínima que fosse, na sua dura vida de cidadão. Considerava as minhas preferências como regra de conduta, o que na profissão se chama linha editorial. Ou seja, todos os que lidam com a escrita acabam por interferir na linha de pensamento da empresa. Uma escola de comunicação que agora não me recordo qual garante que não existe objetividade absoluta. Todo texto está impregnado da subjetividade do autor. O jornalismo, portanto, não se divide entre informação e opinião, mas se compõe de ambas.

Confesso que não tenho paciência para temas menores, leituras que não acrescentam nada. Foi assim que consegui abolir as páginas de notícias policiais, o que deve ter sido bom para a saúde mental de todos. Somente o assunto muito grave tinha espaço garantido. O que me orgulho de ter extirpado foram aquelas notas que não levam a lugar algum: a apreensão de pequenas porções de entorpecentes, a colisão leve entre dois carros e a briga de bar foram definitivamente eliminadas. Se havia a recorrência de determinados tipos de crime, aí sim, o chefe da polícia deveria ser entrevistado para oferecer uma explicação e a possível solução para o problema. Estatísticas geralmente rendem boas reportagens.

A redação, portanto, deveria se ocupar de temas maiores. A exceção ficava por conta das crônicas, essas sim admitem a leveza e a descontração. A própria essência da crônica é um paradoxo: enquanto o noticiário exige o peso dos fatos que movem o mundo, ela se alimenta do detalhe que quase ninguém nota.

Quando ajudei o jornal a deixar de publicar um catálogo de pequenas misérias cotidianas, pensei justamente no respeito que devíamos a quem nos lia. Se a Rádio Eldorado –que infelizmente saiu do ar recentemente– orgulhava-se de ser “a rádio dos melhores ouvintes”, eu queria que o “Nosso Jornal” fosse o espaço dos leitores mais exigentes. Quem busca o jornal quer relevância, quer entender os rumos da sua comunidade, e não perder tempo com a fofoca de esquina que em nada soma à sua experiência de cidadão. Economizar o tempo do leitor com o que importa é uma forma de qualificá-lo.

Mas, se a folha de política, de economia e de serviços cumpre esse papel de guiar o cidadão em sua dura rotina, a crônica surge como o respiro necessário. Ela é o avesso do factual. Aprendi isso aos 12 anos, quando fui apresentado ao mais plural dos gêneros literários. Augusto Nunes acabara de introduzir a crônica no “Caderno2” do susido “Estadão” –ele próprio compondo o timaço de escritores. Pouco tempo depois, passei a imitar diligentemente os mestres daquela arte, na esperança de algum dia me tornar um deles. Acabei no jornalismo.

Enquanto na manchete buscamos os grandes temas, aqui o que vale é o tom de conversa despretensiosa, como se estivéssemos dividindo uma mesa de café, jogando conversa fora com um velho amigo. É claro que essa aparente leveza esconde o seu próprio desafio. Garimpar o assunto da vez, extrair poesia do banal, não é tarefa simples. Nem todos nós temos a genialidade de um Rubem Braga, capaz de erguer monumentos literários a partir de um fiapo de palavra, de um passarinho na janela, de uma folha que cai ou de outra ideia aparentemente banal. Nós, operários da notícia, tateamos o cotidiano em busca desse equilíbrio: dar ao leitor a gravidade que a cidadania exige e, logo ao lado, a leveza de que a alma precisa para continuar a jornada. Cortar o ruído das pequenas ocorrências policiais foi abrir espaço para o que realmente humaniza as páginas da vida.

(Imagem gerada por IA)

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