Neymar Jr vai ou não vai?
Mais uma vez por aqui, a Copa do Mundo. Esporte é um tema que o cronista hoje apenas aprecia, já que sua prática está cada vez mais longe, numa gradação que foi começando lá pelos meus 30 anos. Coincidentemente, a mesma faixa etária em que os craques do futebol penduram as chuteiras profissionais ou veem suas habilidades não responderem tão bem aos esforços do corpo. Neymar Jr, aos 34, segue na ativa, mas sem o brilho que ostentava na mocidade.
É incerta a presença do meia-ofensivo do Santos no Mundial, que começa a menos de um mês. Parte do grupo que tem presença garantida faz força pela convocação do amigo, mas o técnico italiano que dirige o Brasil dribla o movimento, limitando-se a lembrar que Neymar está se recuperando bem das lesões. Dizem que a experiência do jogador emprestaria confiança à Seleção. A voz das ruas está dividida entre os que o querem e a parte que já não acredita numa reabilitação do ex-menino da Vila.
A verdade é que Neymar já ficou de fora até mesmo do álbum de figurinhas da Copa. E tudo indica que a editora Panini acertou ao não considerá-lo entre os convocados. Carlo Ancelotti tem autonomia suficiente para convocar os melhores do momento –e, sem dizer muito obrigado, alijar-se daqueles que não se encaixam em seu projeto.
Neymar está na lista dos 55 pré-selecionados. Até o dia 18, restarão 26. Se o camisa 10 não for a esta Copa, chegará ao fim da carreira sem um título mundial. Mais do que isso, sem mostrar o desempenho que esperávamos dele desde que estreou na competição, em 2014. A seu favor, pela contagem da FIFA, ficarão na história seus 79 gols em 128 jogos pela Seleção, a maioria amistosos.
Essa “quase-presença” de Neymar em convocações é o retrato fiel de uma carreira em que o protagonismo técnico foi arranjado pelo ruído midiático. Se antes ele era a esperança solitária de um hexa, hoje é visto como um coadjuvante de luxo que custa caro demais para o pouco que entrega em termos de intensidade.
A vida badalada, regada a festas nababescas e uma exposição incessante, parece ter antecipado o crepúsculo de quem, fisicamente, já não consegue acompanhar o ritmo frenético do futebol moderno. O brilho nos olhos deu lugar ao cansaço de quem parece já ter conquistado tudo o que o dinheiro poderia comprar, mas quase nada do que a glória eterna exige.
Não se pode, contudo, ignorar o fenômeno financeiro e o rastro de títulos que ele deixará. Neymar pai foi o arquiteto de contratos estratosféricos que redefiniram as cifras do esporte, transformando o filho em uma marca global mais potente que muitos clubes centenários. Colecionou taças da Champions League, Libertadores e campeonatos nacionais, provando que, em seus dias solares, era capaz de decidir uma partida. O problema é que o futebol cobra o preço da negligência com o foco, e a fatura de Neymar chegou antes do esperado, empurrando-o para a periferia dos grandes palcos europeus.
O retorno ao Santos, ensaiado entre boatos e aparições na Vila Belmiro, soou como uma tentativa de reconciliação com a própria essência. Voltar para onde tudo começou não é apenas uma estratégia de marketing, mas um desejo de encerrar o ciclo sob o manto que o projetou para o mundo, buscando o afeto de uma torcida que ainda guarda na memória o menino que parou o Brasil com um moicano e uma ousadia sem limites. No meu Alvinegro Praiano, ele não precisaria correr como um garoto de 20 anos. Bastaria o peso da camisa e o talento incontestável para, quem sabe, escrever um capítulo final menos melancólico do que o que se desenha na Seleção.
Se Ancelotti lhe fechar as portas de vez, Neymar será o símbolo de uma geração talentosa que se perdeu nos próprios excessos. O fim da linha na Amarelinha sem o caneco da FIFA deixaria um vazio que nem todos os milhões de euros ou recordes de gols poderão preencher. Restará ao cronista e à torcida a sensação agridoce de que vimos um gênio atuar, mas que esse gênio, por capricho ou distração, preferiu ser celebridade a ser lenda. Em breve, a chuteira pendurada na Vila talvez seja o repouso necessário para quem sempre teve o mundo aos seus pés, mas que, no fim das contas, só queria voltar para casa antes que as luzes se apagassem definitivamente.
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A propósito, a Globo Livros lançou a edição 2026 de “O Livro de Ouro das Copas”, do jornalista Lycio Vellozo Ribas. A obra revisita todos os Mundiais desde 1930, no Uruguai, abordando curiosidades, grandes equipes, goleiros históricos e as maiores polêmicas. A atualização chega à Copa deste ano, que receberá a seleção do Irã, país que está em guerra com um dos três anfitriões, os EUA.
(Imagem gerada por IA)













