Anzóis, peixes e os mistérios do universo
Ao terminar a leitura de “A simples beleza do inesperado”, do físico Marcelo Gleiser, comecei a refletir sobre pescaria. Justo eu que não sou dado a ficar horas esperando o peixe se enfincar num anzol. Ainda bem que, logo de cara, há a advertência: se você não se interessa por pesca, não se preocupe. Continue lendo, porque autor tentará provar que a pesca é um portal que nos permite vislumbrar tanto o mundo dos fenômenos naturais quanto o nosso mundo interior, com seus anseios e paixões.
O autor ressalta que, assim como eu, também não dava banho em minhoca. Essa “arte” entrou na vida dele depois de assistir a uma aula sobre pesca fly na Dartmouth College, universidade norte-americana em que é professor. Para os não iniciados, assim como eu, é bom explicar que a fly fishing é uma pesca esportiva ancestral que utiliza iscas artificiais extremamente leves, chamadas de “moscas”, para atrair os peixes.
Bem, o livro não é necessariamente sobre pescaria, mas elege esse esporte (embora os peixes discordem dessa definição) tipo fio condutor da trama. Com suas convicções de físico e pescador, quer provar que a ciência cruza o caminho da espiritualidade. Defende que a ciência não retira o encanto do mundo, mas o amplia, e argumenta que o conhecimento científico é uma forma de conexão com o “mistério”.
Marcelo Gleiser também sustenta a ideia de que o universo não é fruto de uma perfeição matemática rígida, mas de assimetrias e acidentes. A vida seria, portanto, o resultado do “inesperado” e do imperfeito, embora eu não concorde com essas teses, e não sou eu que está dizendo, mas o meu amigo Einstein: “Deus não joga dados”.
O autor vai enaltecendo a pescaria como prática que exige paciência e presença, ou seja, estar totalmente imerso no agora, olhando fixamente para perceber qualquer movimento da linha que não seja resultado do vento. Também ensina humildade: aceitar que não temos controle sobre tudo –seja com angu ou com minhoca, o peixe vem a hora que ele quiser.
O livro tem ciência pesada, alternada com detalhes de suas incursões pelos rios. E eu achando que pescaria amadora era um assunto menor, uma mera distração de fim de semana. É por isso que os aficionados levam tão a sério essas horas de extrema concentração. A esposa de um pescador precisa entender isso antes que o casamento esteja ameaçado. Um marido pescador é capaz de passar o dia a pão com mortadela em nome de umas boas fisgadas.
Gosto de comer peixe, mas isso contrasta com uma coisa que não é nova. A compaixão pela caça já fez muita gente se tornar vegetariana. Sempre tive pena dos peixes, que, atraídos por um engodo, sentem a dor de ser puxados pela boca, numa tentativa de tirá-los da água. Às vezes, essa dor é em vão: se pequenos, são devolvidos ao rio, até que outro homem venha e os capture novamente. Essa, aliás, é a dinâmica do que se dá o nome de pesca esportiva.
Ok, sei que no atual estágio de evolução da humanidade, os animais ainda fazem parte da nossa cadeia alimentar. Se considerarmos que dois peixinhos até já foram milagrosamente multiplicados para alimentar milhares de famintos, quem sou eu para atirar a primeira pedra em quem pesca por diversão ou por necessidade?
Ainda mais agora, depois de saber que um físico da estatura desse professor brasileiro usou a pesca como forma de sair da teoria e se reconectar com a natureza de modo prático. Suas fisgadas mundo afora são metáforas para entender leis naturais, ciclos, paciência e incertezas. Desconfio de que todo pescador já sabia disso tudo que está no livro, mas recomendo incluir a obra de Marcelo Gleiser na sua tralha –para o dia em que o mar não estiver para peixe.
(Imagem gerada por IA)













