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Cassandra enganadora

A noite de sábado em Taquaritinga, em meados da década de 70, se arrastava sob uma garoa persistente que embaçava até as perspectivas de diversão. Sem grandes planos no horizonte, dois amigos –que, por pudor ou prudência, preferem o manto do anonimato– matavam o tempo e algumas garrafas de cerveja no balcão do Bar Rivo.

Entre um gole e outro, o tédio buscou refúgio na sétima arte, mas com boas doses de segundas intenções. Um deles perguntou ao garçom:

— O que está passando no Cine São Pedro?

A resposta veio seca, sem o tempero da hospitalidade:

— Não sei, não.

Inquieto, o rapaz decidiu que a informação valia o esforço de alguns passos. Foi até a soleira do bar, esticou o pescoço em direção à fachada vizinha e retornou com um brilho malicioso no olhar e um sorriso de quem acabara de descobrir um tesouro.

— O título é adulto — anunciou, entusiasmado. — Chama-se “As Travessuras de Cassandra”. Tá a fim?

O companheiro não hesitou na resposta. A promessa de uma Cassandra libertina era o antídoto perfeito para a melancolia de uma noite sem outra esperança. Liquidaram a conta apressadamente e logo se viram na pequena fila da bilheteria ao lado. Afinal, naquela época, o Cine São Pedro era generoso em colocar em cartaz produções, digamos, mais “calientes” para aquecer o público adulto, majoritariamente masculino.

Acomodaram-se em poltronas no meio do auditório, a expectativa flutuando no ar junto com o cheiro de pipoca. Mas, assim que a luz se apagou e o projetor deu movimento à tela imensa, o que se viu foi um cenário dramático. Eram bombas, estilhaços e uma sinfonia de explosões que em nada lembravam um romance tórrido.

Cinco minutos de projeção e a frustração já predominava. Nem sinal de Cassandra. Nenhuma coxa furtiva, nenhum decote generoso, nada que justificasse o título picante. No décimo minuto, a dúvida venceu o silêncio:

— Será que entramos na sala errada? — sussurrou um, desolado.

— Impossível… É o único filme em cartaz hoje — rebateu o outro, resignado.

Embora a libido tivesse sofrido um golpe fatal, o roteiro era magnético –ainda por cima, com a presença das musas Sophia Loren e Ava Gardner. Em vez das “travessuras” imaginadas, viram-se enredados em um roteiro bem ao estilo hollywoodiano: um ataque terrorista a um laboratório químico, um vírus letal e uma fuga desesperada a bordo de um trem alucinado.

Quando as luzes se acenderam e os créditos subiram, a dupla deixou a sala com a sensação de ter comprado gato por lebre. Ao cruzarem a mesma porta em que entraram, pararam diante do cartaz que os traíra. Os olhos, agora mais atentos, decifraram o letreiro que a pressa havia distorcido: “A Travessia de Cassandra”.

Nada de alcovas ou pecados. “The Cassandra Crossing”, a superprodução de 1976, referia-se apenas a uma ponte ferroviária decadente e enferrujada na Polônia. A Cassandra dos rapazes não era uma sedutora de carne e osso, mas uma estrutura fria de aço, prestes a desabar sob o peso de uma catástrofe.

Rindo de si mesmos, saíram para a noite chuvosa, compreendendo que, às vezes, entre uma “travessura” e uma “travessia”, há apenas o abismo de um desejo ou a necessidade de consultar um oftalmologista.

Imagem: Divulgação

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