Santa-casa banner
Shadow

Por Marcus Rogério de Oliveira*

Queridos leitores, é sempre muito bom reencontrá-los nesta nossa conversa semanal. Estou muito feliz em compartilhar com vocês como a inteligência artificial se transformou numa questão concreta do nosso tempo. Hoje, já não falamos só de software. Falamos de máquinas que enxergam, se movimentam, manipulam objetos, circulam por aí e passam, pouco a pouco, a assumir tarefas do cotidiano.

Nos últimos dias, a movimentação da Amazon reforçou ainda mais esse cenário. A empresa, que já conta com mais de 1 milhão de robôs em sua operação, adquiriu a empresa Fauna Robotics, criadora do robô Sprout, e também a Rivr, especializada em robôs de entrega capazes de subir escadas. A própria Amazon já vinha associando inteligência artificial à logística, depósitos e às entregas. Você já observa isso, não é? A automação está saindo do ambiente fechado do armazém e avançando para espaços sociais e urbanos.

Isso nos leva a uma pergunta muito importante: onde veremos esses robôs trabalhando primeiro aqui, na nossa realidade? A resposta vem das aplicações que já observamos ao redor do mundo. Vários exemplos de novos negócios e oportunidades que colocam robôs em trabalhos de limpeza, vigilância, apoio logístico, rondas patrimoniais, recepção, transporte interno de materiais e parte dos cuidados assistivos. Essas estão entre as áreas mais candidatas. Em condomínios, hospitais, centros logísticos, shopping centers, hotéis, aeroportos, empresas de facilities e serviços terceirizados, boa parte da rotina envolve tarefas que podem ser desempenhadas pelos robôs. É esse tipo de atividade que a nova robótica, combinada com IA, tende a absorver mais rapidamente. Essa é uma inferência importante quando observamos a direção dos investimentos atuais no desenvolvimento de robôs, na casa dos bilhões.

Os números ajudam a tornar essa discussão menos abstrata. Hoje, a Unitree anuncia o humanoide G1 por US$ 13.500 e o H2 por US$ 29.900. A própria Unitree também mostra modelos ainda mais baratos em pré-venda, como o R1 a partir de US$ 4.900. Já a Tesla ainda não divulga preço oficial de venda do Optimus, mas Elon Musk vem falando em algo na faixa de US$ 20 mil a US$ 25 mil. Convertendo pela cotação de referência recente do dólar comercial, isso colocaria um G1 em torno de R$ 70,6 mil, um H2 perto de R$ 156,3 mil e um Optimus numa faixa aproximada entre R$ 104,5 mil e R$ 130,7 mil.

Agora comparemos isso com uma conta ilustrativa do trabalho humano formal no Brasil. Em nossas conversas por aqui, verificamos com nossos amigos que trabalham nesse ramo, numa conta simplificada, um G1 equivale a cerca de 2,9 anos desse custo direto de um auxiliar de limpeza; um Optimus na faixa estimada por Musk ficaria perto de 4,1 a 4,6 anos; e um H2, em torno de 5,5 anos de um vigilante.

É claro que o mundo real é mais complexo do que uma mera especulação de valores de compra. Robôs exigem manutenção, supervisão, energia, integração e segurança operacional. Mas, a direção econômica pode parecer clara. Para empresas de prestação de serviços, a tentação de automatizar parte das rotinas será enorme. E aqui entra o ponto mais importante desta reflexão: como lidaremos com essa questão? Pode ser que isso não precise ser visto como uma condenação do trabalhador. Pode ser que o mais adequado seja entendê-lo como um chamado à evolução.

Temos ainda uma observação importante: os robôs que vemos hoje nos vídeos de demonstração, até que são impressionantes, não são? Mas a realidade ainda é bem diferente. Um piso molhado fora do padrão, uma escada estreita em um prédio antigo, uma criança correndo pelo corredor são situações absolutamente corriqueiras para qualquer um de nós, mas ainda são verdadeiros quebra-cabeças para essas máquinas. E sabe o que isso significa? Que temos tempo. Tempo para pensar e para nos preparar. A revolução robótica não vai bater à nossa porta amanhã de manhã pedindo licença. Mas poderá chegar de surpresa se a ignorarmos.

Temos muitas coisas a nosso favor. Toda grande automação da história produziu grandes mudanças. Quando tarefas de limpeza, ronda, inspeção, movimentação e apoio operacional começarem a ser absorvidas por máquinas, crescerá a demanda por pessoas capazes de supervisionar frotas robóticas, treinar sistemas, cuidar da operação, fazer manutenção, interpretar dados, liderar processos e desenhar novos serviços. O trabalho humano tende a migrar. E essa talvez seja a parte mais inspiradora de tudo isso. Estamos diante da necessidade de preparar pessoas para novas funções, aparentemente mais criativas e mais estratégicas.

Nossa região precisa olhar para isso com serenidade e com uma visão aguçada para as oportunidades. Haverá espaço para técnicos, professores, programadores, mantenedores, empreendedores e jovens em formação. O robô nos inspira a crescer. E talvez esta seja uma das grandes mensagens do nosso tempo: o futuro do trabalho será diferente. E quanto antes entendermos isso, mais preparados estaremos para ocupá-lo com inteligência, dignidade e visão.

 

*Marcus Rogério de Oliveira é um renomado professor da Fatec de Taquaritinga, onde leciona desde 1995. Com um extenso currículo acadêmico, é Doutor em Biotecnologia pela UFSCar, Mestre em Ciência da Computação pelo ICMC-USP e Bacharel em Ciência da Computação pela Unoeste. Sua vasta experiência o tem levado a atuar em áreas como Banco de Dados, Desenvolvimento de Sistemas, Engenharia de Dados e Ciência de Dados.

 

(Imagem gerada por IA)

Rally Auto Posto