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Técnica –e sorte– fazem o campeão

Se eu disser que a seleção campeã da Copa não é necessariamente a melhor do mundo, você acreditaria? Pode crer, isso é verdade. O componente “sorte” também tem de ser levado em consideração. O título começa a ser resolvido logo no sorteio dos grupos.

Se a seleção de um país em que o futebol é tradicional (Brasil, Argentina, Alemanha, Itália, França…) cai num grupo com nações em que a modalidade beira o amadorismo, já é um terço do caminho andado. Nas etapas seguintes da competição, a variável sorte persiste.

Como consequência da primeira fase, o primeiro colocado de uma chave enfrenta o segundo colocado de outra. Teoricamente, o segundo já é mais fraco que o primeiro –ou não, caso tenha enfrentado um adversário mais forte.

De todo modo, em questão técnica e preparo físico, nenhum grupo é igual ao outro. Portanto, dificilmente todas as seleções encontram condições idênticas. Como elas não partiram do mesmo ponto, a pura meritocracia já cai por terra.

O futebol é um jogo, e por isso está longe de seguir uma matemática perfeita. Um exemplo bom é a Alemanha, que aplicou a goleada de 7 a 1 no Brasil na Copa de 2014 e acabou como campeã. Nos dois mundiais seguintes, caiu na fase de grupos, logo no início das competições.

Se você acompanha futebol, deve se lembrar dos elogios que a imprensa especializada fazia: que a Alemanha havia reorganizado a seleção, que o trabalho executado era um exemplo para as demais confederações –excetuando-se, é claro, a “limpeza de salão” que o técnico alemão exibia à beira do gramado.

Além do sorteio e do chaveamento, há o fator do “dia ruim” –ou da “noite iluminada”. Em um campeonato de pontos corridos, um tropeço é um aprendizado, mas em uma Copa do Mundo, noventa minutos de uma bola que teima em bater na trave ou uma decisão equivocada da arbitragem podem mandar para casa um projeto de quatro anos.

Quantas vezes não vimos seleções tecnicamente soberbas esbarrarem em retrancas heroicas, onde o goleiro adversário vive o dia mais inspirado de sua vida justamente no momento em que não há amanhã? A eficiência momentânea atropela a superioridade histórica sem pedir licença. Não há o que fazer quando entra em campo o “Imponderável de Almeida”, figura criada por Stanislaw Ponte Preta.

Há também o desgaste invisível das batalhas anteriores. Enquanto uma favorita pode chegar às quartas de final tendo poupado titulares contra adversários frágeis, outra pode vir de uma sequência de prorrogações extenuantes contra rivais de peso. O campo de batalha nunca é nivelado.

O vigor físico, essencial no futebol moderno, torna-se uma loteria biológica: um desmaio de Ronaldo Fenômeno no vestiário (no final da Copa de 1998, contra a anfitriã França) ou um cartão amarelo injusto que suspende o capitão para a final são variáveis que a meritocracia pura não consegue computar, mas que definem quem levanta a taça.

Por fim, o aspecto psicológico atua como um árbitro tendencioso. Jogar uma Copa é lidar com a pressão de nações inteiras nas costas, e o peso dessa camisa varia conforme o vento da opinião pública e o estado emocional reinante no vestiário.

Às vezes, o campeão não é o time que joga o futebol mais vistoso, mas aquele que melhor soube administrar o caos e o acaso a seu favor. É a mística do torneio: ser o melhor do mundo exige competência, mas ser o campeão do mundo exige, acima de tudo, que os deuses do futebol estejam de bom humor naquele mês específico.

Uma seleção só poderia ser considerada a melhor do mundo, de forma incontestável e absoluta, se o formato fosse outro: se enfrentasse todas as demais equipes participantes em jogos de ida e volta. Só o “todos contra todos” eliminaria as distorções do sorteio e os golpes de sorte dos mata-matas.

Mas, como tal empreitada seria impossível – afinal, a competição duraria uns seis meses e levaria os atletas à exaustão– seguimos aceitando o critério atual. Celebramos o campeão, mas guardamos sempre aquela pulga atrás da orelha: será que o melhor mesmo não ficou pelo caminho?

(Imagem gerada por IA)