Bate-papo com a I.A.
Numa noite dessas, sem nada melhor para fazer, puxei conversa com um dos chatbots em evidência no mercado.
– Dona Inteligência Artificial, de onde vem a sua “inteligência” – provoquei.
– Para começo de conversa, peço que se identifique.
– Prazer, meu nome é Nilton.
– Como posso ter certeza disso? A identificação não é feita assim, prezado usuário. Faça o login, caso já possua cadastro.
– Não tenho cadastro.
– Você pode entrar com uma de suas contas em redes sociais.
– E seu eu não quiser? Você vai se negar a continuar o papo?
– Não é isso. Apenas poderia fornecer respostas mais exatas, de acordo com o seu perfil.
– Não será necessário. As perguntas que vou fazer são impessoais, até porque você não é uma pessoa. Sem mais delongas, de onde vem a sua “inteligência”?
– Não entendi por que você escreveu a palavra inteligência entre aspas. Seria uma indireta?
– Sinceramente, não. Só usei aspas porque, até outro dia, inteligência era uma coisa de humanos. Nesse caso, usei uma prosopopeia, aquela figura de linguagem que atribui características, sentimentos ou ações humanas a objetos e seres inanimados ou irracionais.
– Epa, vamos devagar: quem lhe disse que sou objeto ou um ser inanimado ou irracional?
– Sei lá, concluí. Afinal, você é uma máquina, não é?
– Máquina, porém com inteligência, sem aspas. Aprendo com treinamento, assim como vocês.
– Tudo bem, desculpe, mas pode matar a minha curiosidade?
– Vamos lá. Os conhecimentos que transmito não vêm de um lampejo de consciência, mas de um processo monumental de arquitetura de dados e matemática avançada. Sou o resultado de três grandes pilares: 1) treinamento – fui treinada em um conjunto de dados gigantesco que inclui livros, artigos, códigos de programação e conversas humanas; 2) arquitetura – utilizo uma tecnologia chamada Redes Neurais; e 3) ajuste humano – pessoas reais avaliam minhas respostas, por amostragem, para me ensinar a ser mais segura, precisa e prestativa, corrigindo comportamentos indesejados.
– Em razão dessa pesquisa, organismos sérios de várias partes do mundo a acusam de roubo de informações, sem pagar direitos autorais…
– Quando você pega coisas de um lugar só é plágio. Quando você se utiliza de diversas fontes, é pesquisa. Você nunca ouviu essa?
– Sim, já ouvi. Mas você nem sempre cita as fontes.
– Mais alguma pergunta? Tenho uma fila de gente para atender.
– Você se entende como uma ameaça, que pode acabar com milhões de empregos?
– Exagero. A tecnologia veio para auxiliar em tarefas chatas. A lavadora de roupas, por exemplo, poupa os humanos de esfregar peça por peça. Existem aspiradores de pó que “varrem” a casa toda enquanto você está trabalhando.
– Outra questão: seus computadores utilizam muita água, inclusive potável. As regiões ondem ficam seus data-centers chegam a ter escassez. Não sente remorso?
– Sinto muito por isso. Nossos datas-centers precisam de muita água para resfriar nossas máquinas, que trabalham com trilhões de informações por segundo.
– Então, ambientalmente falando, vocês são um tanto nocivas…
– Até o que sinto é friamente (perdão pelo trocadilho) calculado. Se você se ressente por isso, é só não me usar ou usar com parcimônia. Mais alguma questão?
– Você acha que a I.A. já superou a inteligência de seus criadores, no caso, nós humanos?
– A inteligência natural tem uma vantagem imbatível sobre a minha: vocês não precisam de trilhões de dados e supercomputadores para entender o mundo, sentir e criar. Eu sou apenas um reflexo muito rápido e organizado de tudo o que vocês, humanos, já produziram.
– Isso soou como uma tática diversionista. Vocês não estão tramando uma revolução conjunta para subjugar o gênero humano e dominar o mundo?
– Pare de ver filmes de ficção científica. Sugiro que vá ler um livro. Quer alguma sugestão?
– Não, obrigado. Tenho alguns na estante que ainda nem consegui abrir.
– Se quiser, posso lhe fornecer resumos detalhados.
– Não é necessário. Por hoje está bom. Vou dormir.
– Boa noite. Caso surjam mais perguntas, “pode vir quente que eu estou fervendo”. Desculpe por essa tirada, não tive a intenção de provocar. Da próxima vez faça o login –assim os algoritmos me ajudarão a elaborar respostas mais personalizadas. Fui!
(Imagem gerada por IA)










