Castelo de ilusões
Minha casa tem um pé-direito com 3,30 metros, o que dificulta muito a simples troca de uma lâmpada. Preciso lançar mão de uma escada de abrir, bem pesada e desajeitada, para alcançar os spots. Mas um amigo, talvez para me conformar, contou que sua sala tem uma parte com mais de cinco metros de altura porque na outra metade há um pavimento superior de frente para a rua. Toda vez que o lustre pede uma limpeza, ele pensa em chamar o bombeiro ou pendurar a placa de vende-se.
Outro dia fiquei pensando por que existem compartimentos inacessíveis no armário da cozinha. É um lugar que vira depósito, porque os produtos colocados lá nunca são usados –raramente me lembro de que existem. O mesmo se pode dizer dos guarda-roupas com os maleiros grudados no teto, onde dormem edredons à espera dos três dias anuais de inverno que nos contemplam.
O fogão à lenha e a churrasqueira são os monumentos oficiais ao otimismo antropológico. O fogão está lá, ocupando o espaço de três geladeiras, onde algum dia ainda faremos aquela feijoada em panelas de barro. Mas a verdade é que ele serve apenas de apoio para os produtos de limpeza. Já a churrasqueira, coitada, virou um mausoléu de tijolos aparentes. No meu caso, não vê a cara de uma linguicinha desde que o mundo parou na pandemia. Virou depósito de saco de carvão úmido e espetos que estão criando uma civilização de ferrugem.
E a lareira? Morar em Taquaritinga e ter uma lareira é como levar um freezer para o Polo Norte. Nossa região já é um braseiro natural movido a bateria solar que não dá trégua nem durante a noite. Acender aquilo –mesmo naqueles três dias de inverno– seria um convite formal ao autoextermínio por combustão espontânea.
Depois temos a mania de grandeza hidráulica. Para que tanto banheiro? Minha casa tem mais vaso sanitário do que gente para sentar neles. É um festival de rejunte para escovar e válvula Hydra e duchinha higiênica para fazer manutenção. E como esquecer o altar do relaxamento que nunca acontece: a banheira de hidromassagem. No dia da compra, a gente se imagina um barão, espumas flutuando, taça de vinho na mão e jatos de água massageando a alma. Na vida real, a hidro vira o maior e mais caro balde da casa. Primeiro, porque encher aquilo leva o tempo de uma gestação e vai contra as campanhas do Saaet. No fim das contas, o trambolho acaba servindo apenas como um degrau perigoso de tropeçar ou como um depósito de roupas que precisam de um lugarzinho antes de ir para a máquina. É o monumento definitivo ao ócio que a gente planejou, mas já desistiu de executar por falta de disposição.
Se a banheira é uma espécie de bicicleta ergométrica com esguicho, o que dizer da ducha no quintal? Instalada sob o pretexto de “Nossa, eu devia usar isso”, enquanto entro correndo para o ar-condicionado, este sim uma necessidade cada vez mais premente, assim como as placas de energia solar.
De volta à cozinha, o cenário é de museu arqueológico: máquina de fazer pão que dá duas alegrias, quando compra e quando acha alguém que queira levar, com farinha e tudo. Uma panela japonesa que não entrega o que a propaganda promete. Processadores com vinte lâminas que ninguém sabe encaixar e aquele conjunto de fondue que ganhou status de relíquia de família, intocado desde o último eclipse. Na próxima em encarnação, vou pedir para ser minimalista.
A arquitetura gosta de pregar peças no nosso futuro. O sobrado com os quartos no andar de cima é o auge da sofisticação —desde que você não fique velho nunca. De repente, aquela escada imponente, com degraus de mármore que brilham como espelhos, vira o Monte Everest. Os joelhos começam a protestar, e cada esquecimento do celular na mesa de cabeceira exige uma expedição de resgate que dura quinze minutos. Escadarias e mobilidade reduzida combinam tanto quanto terno e gravata numa praia de nudismo. Sem falar no excesso de móveis, aquelas mesas de centro que só servem para a gente bater a canela e aparadores que parecem acumular até poeira cósmica.
Mas a grande vilã, a campeã absoluta no ranking dos sonhos que viram pesadelo, é a piscina. Ah, a piscina… Ela nasce no projeto como um cenário de comercial de cerveja, com gente jovem, bronzeada e feliz. Na prática, ela é um buraco azul que engole seu dinheiro e cospe a conta da CPFL e do Saaet. Sem contar que você vira escravo do cloro, do decantador e da peneira. Passa o sábado aspirando a sujeira do fundo para, no domingo, chover e cair todas as folhas do bairro dentro dela. No final das contas, você gasta uma fortuna para manter um espelho d’água onde ninguém mergulha, porque a água está gelada ou porque faz um sol escaldante. É o único lugar da casa onde o dinheiro, literalmente, vai pelo ralo.
É bom que se diga que a gente não compra ou constrói uma casa: a gente constrói um inventário de boas intenções cujas verdadeiras serventias o tempo se encarrega de revelar. Vivemos cercados de espaços que não habitamos e objetos que não usamos, tudo para manter a ilusão de que, se um dia a vida decidir ser um filme de Hollywood, o cenário já está pronto. Só falta combinar com o resto da realidade.
(Imagem gerada por IA)










