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A gente não quer só comida

Frequentei muito o Clube Náutico, na minha juventude. Produzia o informativo mensal para os associados quando o presidente Jandislau José Lui projetou e liderou a execução do parque aquático, nos anos 1990 –o clube se divide em antes e depois dessa obra, que até hoje é a maior atração. Foi muito bom pegar os grandes bailes do Hawaí com suas decorações fantásticas, as festas à fantasia com atrações de peso e os concorridos jantares do vinho e queijo.

Antes da construção das piscinas, o clube se resumia à represa e a alguns quiosques. Foi também nessa época que foi organizado o condomínio Pássaros e Flores, com terrenos pertencentes ao seleto grupo de 300 detentores de títulos da modalidade fundador. Jandislau ganhou de presente um projeto de paisagismo do arquiteto taquaritinguense Benedito Abbud, de talento e fama internacionais.

O Náutico foi inaugurado em agosto de 1970, resultado do sonho de um grupo de empreendedores. Poder frequentá-lo é uma homenagem à memória de meu pai, que trabalhou na obra tão logo trouxe a família do sítio para a cidade, e eu ainda não existia. Fiquei um tempo sem ir, mas no ano passado decidi comprar um título, porque o clube está muito bem cuidado, com uma estrutura boa para o conforto de sócios e visitantes.

Mas a minha memória afetiva não se restringe apenas às margens da represa. Ao mesmo tempo em que o Náutico se tornava o gigante que é hoje, vivi a efervescência da mocidade no Clube Imperial. Fundado em 1919, o Imperial era “a sala de visitas da cidade”, como lembrava o seu slogan. Realmente, era lá que uma parte da sociedade de Taquaritinga pulsava.

Guardo com carinho as lembranças dos carnavais inesquecíveis, quando o piso do salão que se debruça sobre duas ruas literalmente balançava, e dos bailes de gala que faziam a sede social brilhar. As tardes na sede das piscinas eram o ponto de encontro de uma geração que descobria o mundo entre mergulhos, jogos esportivos e conversas despretensiosas.

Infelizmente, o destino foi severo com aquela instituição centenária. Sufocado por dívidas, o Imperial naufragou, vendo suas sedes serem vendidas em leilão. O fim do clube deixou um vazio no patrimônio histórico da cidade, servindo como um lembrete de que a gestão e o associativismo são pilares frágeis se não houver um esforço coletivo para mantê-los saudáveis.

Essa perda me faz refletir sobre o quanto o lazer é essencial. Hoje, fala-se muito sobre a importância do descanso e do entretenimento na vida dos trabalhadores, da redução da jornada semana, mas a realidade é que o acesso a esses espaços de lazer ainda não é para todos. A vida não pode se resumir a “bater o ponto” e receber apenas o suficiente para suprir as necessidades básicas. A existência exige o belo, o lúdico e o convívio. A vida passa depressa demais para que não desfrutemos das coisas boas que ela oferece: o lazer não é luxo, é dignidade.

Por tudo isso, o Clube Náutico, com sua vida social e esportiva sempre movimentada, é um patrimônio de Taquaritinga que precisamos proteger com zelo. Manter o clube vivo e pujante é uma questão de gratidão, uma forma de honrar os primeiros empreendedores –dos quais o aposentado Ariel Gladystone Poletti permanece como nossa memória viva– e de reverenciar o legado transformador do professor Jandislau Lui.

Ao caminhar hoje pelas alamedas do clube, sinto que cada espaço bem cuidado é um tributo ao suado trabalho do meu pai e ao sonho de tantos outros. O Náutico não é apenas um lugar de lazer e entretenimento. É o guardião de nossas melhores lembranças de juventude, o cenário onde as últimas gerações aprenderam o valor do encontro. Felizes os jovens de hoje que podem desfrutar desse quintal de paisagens exuberantes.

Foto: Facebook/Clube Náutico Taquaritinga