A arte de pôr nome em rua (2)
Outro dia mesmo este espaço foi dedicado ao ofício de dar nome em vias públicas. E não é que até o grande Carlos Drummond de Andrade ocupou-se do assunto, em deliciosa crônica de 1976. Mas o que escritor mineiro fez foi diferente, ao propor dedicar mais arte e criatividade a essa tarefa, que é exclusiva do poder público.
Ao tomar conhecimento daquelas bem traçadas linhas, na semana passada, não pude resistir à tentação de pensar em cidadãos que deram um pouco de seu brilho a essas plagas, relacionando-os a seus feitos literários, assim como fez o imortal poeta de Itabira.
Uma Rua das Camélias cairia muito bem para perenizar a memória do escritor e advogado Manoel J. Pires, que editava e vendia os próprios livros – e foram mais de 20. Viveria bem quem morasse na Avenida Horas Cor de Rosa, uma homenagem ao poeta Narciso da Rocha Nuevo, ele que já é nome da praça do cemitério.
A Travessa da Estrela não teria nada a ver com o PT, mas com Antônio Barreto de Mendonça, patriarca de uma família pródiga na arte da escrita, em verso e prosa, como Zita, Dado e Nicão. Já a Rua dos Monarquistas faria referência –e reverência ao avô deles, Tomaz Sebastião de Mendonça, e a todos os revolucionários de 1902.
Atendendo a pleitos por mais uma homenagem ao Cônego Lourenço Cavallini, uma futura Avenida Bíblia nas Mãos (a obra do sacerdote até hoje é vendida pela internet) seria lugar ideal para a instalação de uma igreja bonita. Essa via poderia desembocar na Praça Seus Dois Amores, que os apreciadores de literatura logo relacionariam à escritora e artista plástica Emília Assumpção Fucci.
A Rua O Ser e o Tempo chamaria a atenção pelo nome, e talvez quem passasse por ela procurasse saber a razão de a terem batizado assim. Ao que os moradores logo responderiam que é uma lembrança mais digna a Ivete Tannus, poeta, professora universitária, socióloga e pedagoga que a morte colheu moça.
O ambientalista Cláudio Bedran ficaria feliz se algum dia tivermos por aqui uma Alameda Planeta Verde, uma rua longa e cercada de árvores frondosas. E não sei por que ainda nunca se pensou em plantar tulipas em canteiros da Av. Paulo Roberto Scandar. Aos mais jovens: Tulipa era como os amigos chamavam o jovem advogado.
Não muito longe dali, estaria situada a Rua Um Passarinho Me Contou, também com árvores e alguns bancos, um convite para que os moradores aproveitassem o frescor de suas sombras para ler a obra que deu a José Paulo Paes o Prêmio Jabuti de 1997. Quem sabe assim até as pedras voltassem a conhecer o maior escritor que esta terra já produziu.
Fica a sugestão de se instalar pelo menos uma placa na Praça Horácio Ramalho citando-a como Príncipe dos Poetas de Taquaritinga, título que lhe foi dado pelo Cônego Cavallini, seu amigo de fé e de tertúlias. E uma outra com os versos de “Ipê da praça”, que Horácio escreveu sobre a árvore de flores amarelas que enfeita de amarelo aquele pedaço de chão.
Drummond estava certo ao garantir que “nome de rua pode ser diferente”. O músico e também mineiro Tavito não teria composto a imortal “Rua Ramalhete” (Sem querer fui me lembrar / De uma rua e seus ramalhetes / Do amor anotado em bilhetes / Daquelas tardes), se ela tivesse um outro nome qualquer.
Mais uma prova: se perguntarem onde fica a Praça Almirante Tamandaré, pouca gente aqui em Taquaritinga vai saber a resposta. Muito menos se disserem o nome verdadeiro do patrono da Marinha, Joaquim Marques Lisboa. Mas pelo apelido fica fácil: Praça do Navio.
Nós, que já tivemos a Rua Riachuelo, em homenagem à batalha naval de 1865, em que a esquadra brasileira, sob o comando do Almirante Barroso, foi vitoriosa sobre as forças paraguaias, já fomos melhores em identificar ruas. Depois, um prefeito ou algum legislador, querendo fazer uma média, trocou o nome para Major Calderazzo.
Mas nunca tivemos uma Rua do Ouvidor, como é comum em muitas cidades. Era um costume ter uma para homenagear o cargo de ouvidor, figura central da administração judiciária na época colonial do Brasil. Hoje, a função é menos glamorosa: todos os órgãos públicos são obrigados a ter um ouvidor, aquele funcionário que acumula o trabalho de receber as reclamações da população e tentar encontrar quem as resolva.
Machado de Assis cita 52 vezes, em diversas obras, a Rua do Ouvidor. Essa via era importante na vida social e jornalística do Rio de Janeiro. Lá está ela em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, Esaú e Jacó, Quincas Borba, Memorial de Aires e Iaiá Garcia, além de vários contos como Tempo de Crise, O Anel de Polícrates, Qual dos Dois? e Vinte Anos! Vinte Anos!. Nela ficava a Livraria Garnier, que editou grande parte da obra machadiana.
Assim como Drummond, longe de mim querer mudar nome de rua. É um crime contra os moradores e à memória da cidade. Por várias vezes, já pensaram em trocar o nome da Avenida Washington Luís, o único presidente da República que visitava Taquaritinga por seu parentesco com a família Jordão. Se, algum dia, decidirem colocar mais lirismo nas ruas, que esperem a abertura de novas artérias viárias.
(Imagem gerada por IA)










