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O ontem também é um bom lugar

Semana passada, neste espaço, o assunto foi a falta de preservação da arquitetura histórica. Com raras exceções, o pessoal prefere demolir imóveis cheios de estilo para dar lugar a construções com jeitão contemporâneo.

Confesso que sou partidário da preservação, do restauro. Se essa predileção fosse só minha –e ainda bem que não é– não existiria Ouro Preto, com suas igrejas seculares, e Salvador não teria mais seus casarões.

Gosto de visitar lugares históricos, conhecer a engenhosidade das pessoas que viveram a era pré-computador. Os antigos construíam máquinas sem motor, movidas a uma força motriz alternativa, porque a eletricidade era escassa.

Antes que me chamem de dinossauro, é claro que devemos acompanhar a evolução dos tempos. Mas preservar um pouco do que foi bom é uma forma de transmitir aos mais jovens a noção da grandeza da mente humana, que já foi capaz de criar maravilhas.

Os exemplos abaixo mostram que é possível –e por vezes encantador— viver à margem da velocidade do mundo moderno. Se por um lado a sociedade avança com tecnologia de ponta, inteligência artificial e comunicação instantânea, por outro ainda há quem encontre sentido justamente no resgate de tempos mais lentos, mais táteis, mais humanos.

Veja o casal britânico Liberty Avery e Greg Kirby: apaixonados pelos anos 1940, decidiram recriar aquela década em sua rotina. Usam roupas da época, mobília vintage e hábitos cotidianos que remetem a um tempo em que se escreviam cartas e a hora do chá era sagrada. E mesmo que ainda acessem a internet, fazem isso sem abandonar o compromisso com o passado que escolheram preservar.

Nos Estados Unidos, outros casais optaram por mergulhar na Era Vitoriana. Usam lamparinas, vestem-se como se estivessem num romance de Jane Austen e tentam manter os valores e os gestos daquele tempo. Há algo de corajoso —e poético— nessa resistência à pressa e ao excesso de estímulos.

E no coração do Cerrado goiano, um casal brasileiro vive sem relógio, sem calendário e sem eletricidade. A luz vem do sol. O tempo, marcado por um relógio construído por eles mesmos. Nem é preciso dizer que adoram pescar. Enquanto o mundo gira conectado, eles giram em outra órbita, com simplicidade e autonomia. E aqui ficamos discutindo quem gosta e quem não gosta do Horário de Verão.

Essas escolhas, ainda que raras, provam que não há um único jeito de ser feliz. Que a evolução pode conviver com a preservação, e que conservar o que passou é também um ato de gentileza. Porque, no fim das contas, o ser humano continua sendo movido por algo mais antigo que qualquer tecnologia: o desejo de viver em paz e que a vida tenha algum sentido.

Foto: Reprodução/Instagram

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