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A era dos gurus

Vivemos a era dos gurus. Quem tem uma conta nas redes sociais e uma cara de pau pode faturar uma grana nessas plataformas, fazendo vídeos ou posts com algum conselho. Vale tudo, a escolher: vida saudável, alimentação, psicologia, carreira, produtividade, relacionamento, filosofia, exercício físico e receitas mágicas variadas, até mesmo para curar a miopia fazendo caretas. Basta haver seguidores para que o sucesso, de público e de renda, seja garantido.

Uma entradinha no Instagram é o suficiente para tropeçar em várias dessas ciladas. Perdemos tempo e um pouco de inteligência assistindo a certas coisas, às vezes até bem produzidas. Algumas têm um alto poder de convencimento. Chego a pensar como pude viver sem fazer aquilo –afinal, são coisas mais do que óbvias.

A fórmula é sempre a mesma. Parte-se do pressuposto de que pelo menos uma parte do público passa (ou acredita que passa) por aquele problema cuja solução o guru está apresentando. E de graça! Quando nem tudo é gratuito, no fim do vídeo há um link para saber mais. E dá-lhe venda curso on-line.

É muita gente, que se intitula especialista em algum setor crucial, dando orientações e sugestões para coisas corriqueiras da vida. As redes sociais são as Organizações Tabajara que o pessoal do Casseta & Planeta imortalizou. Ofertam os mais bizarros “serviços”.

E o mais curioso –ou trágico– é que esses criadores de conteúdo, que ironicamente não têm conteúdo nenhum, conquistam multidões reproduzindo frases de para-choque de caminhão com uma trilha sonora reflexiva ao fundo. Compartilham platitudes com a autoridade de quem teve uma grande revelação: “Você precisa aprender a dizer não”, “seja a sua prioridade”, “beba mais água e durma cedo”. A julgar pelo engajamento, parece até que estão revelando os segredos do universo.

Não faltam também as historinhas manjadas de superação, todas seguindo o mesmo roteiro: alguém estava no fundo do poço, mas deu a volta por cima com três minutos de respiração matinal e hoje vive uma vida plena, rica e com o abdômen definido. É uma mistura de autoajuda com telecurso de bruxaria moderna. E o público embarca, comenta com emoji, compartilha nos stories e ainda agradece como se tivesse acabado de assistir a uma palestra do Dalai Lama.

A nova febre são os coaches da saúde mental e da vida afetiva. De uma hora para outra, virou moda diagnosticar tudo: ansiedade, TDAH, burnout. Passaram a distribuir receitas emocionais como se estivessem ensinando a fazer bolo: “Acorde, tome sol, alongue o pescoço e repita três vezes que você é suficiente”; “ressignifique as pessoas que merecem sua atenção”. É a psicologia fast-food, feita para caber em reels de 30 segundos.

E os alimentos milagrosos? Tem chá para tudo. Que cura dor na alma, que ativa a criatividade, que apaga traumas da infância. A natureza nunca foi tão explorada por esse tipo de crendice com verniz científico. Nem as nossas avós, com suas mezinhas de amplo espectro, eram tão criativas. Enquanto isso, seguimos atolados em algoritmos que empurram mais do mesmo, nos levando a acreditar que, para viver bem, é só fazer o que eles sugerem.

(Imagem gerada por IA)

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