Uma carta de amor e história
Uma busca na internet pode levar a lugares inusitados. Em uma dessas andanças virtuais, encontrei uma carta psicografada por Chico Xavier que me tocou de uma forma particular. Mais que um texto, é um pedaço da nossa história, um reencontro com as raízes de Taquaritinga. A mensagem, publicada no quarto capítulo do livro “Viajores da Luz” (1981), foi recebida pelo médium mineiro em parceria com Caio Ramacciotti e traz a voz de um taquaritinguense que, após construir sua vida em Votuporanga, retornou em espírito para narrar sua partida e seu novo despertar. O nome dele: Domingos Pignatari.
A carta de Domingos é um canto de beleza. Revela a grandeza de um homem que, embora enfrentasse uma doença que o consumia, não se deixou abater. Conhecido carinhosamente como Dominguinho, ele se dedicou aos valores do espírito com a mesma paixão que aplicava em suas atividades profissionais. Nascido em Taquaritinga em 11 de novembro de 1927 e falecido em São Paulo em 14 de fevereiro de 1979, ele narra, apenas seis meses após seu desencarne, as sensações experimentadas em seus últimos momentos na Terra.
A descrição é comovedora. Ele conta como sentiu suas forças se esvaindo no Hospital A. C. Camargo, em São Paulo. No entanto, o que se segue não é a dor do fim, mas a surpresa de um novo começo. Ao despertar, ele se vê no Centro do Professorado Paulista, em Votuporanga, entre amigos e familiares. E ali, com o corpo inanimado sendo velado, ele compreende a transição. Sua alma se desprende, e ele se sente transportado pela força de seu próprio pensamento, ouvindo o que se fala a seu respeito, um servidor da comunidade.
O que torna a mensagem de Dominguinho ainda mais impressionante é a sua precisão. A pena de Chico Xavier, que jamais esteve em Taquaritinga, revela detalhes íntimos da infância do falecido. Domingos menciona seus pais, Júlia e Francisco, e o Colégio Nossa Senhora da Consolação (atual Objetivo), onde fez o curso primário. Detalhes esses que Chico não tinha como saber. Mas os registros confirmam: os pais de Dominguinho se chamavam de fato Júlia e Francisco. E o colégio católico, embora já fosse outro na época da publicação da carta, foi de fato a escola de sua infância.
Ele descreve a Taquaritinga de sua meninice: “As ruas ensolaradas, o Colégio Nossa Senhora da Consolação, as paisagens que desapareciam para dar expansão às exigências da cidade moça que crescia e crescia…” É a nostalgia de um passado que ele revive em sua nova dimensão.
Dedicado trabalhador espírita, Domiguinho (que foi comerciante), contou que seu espírito pôde ver o próprio corpo durante o velório e reagir às emoções dos amigos. “Chorei quando o [João] Nucci, o nosso estimado prefeito, se referiu ao meu nome qual se lhe fosse um irmão, e sensibilizei-me profundamente quando o nosso amigo Paschoalotti solicitou homenagens que eu não merecia”, relatou. João Nucci também era natural de Taquaritinga. Domingos agora é nome de avenida e do Aeroporto Estadual de Votuporanga. Também denomina uma rua no Jardim São Sebastião, em sua terra natal.
Na carta recebida por Chico Xavier, o missivista diz que, durante as últimas homenagens, comoveu-se com os amigos do Rotary Club e da Santa Casa, entregando-se por fim “à prece regada de lágrimas porque me lembravam com tanto respeito e tanto amor e eu me via ali, à feição do homem despojado de tudo, ignorando o ponto da vida em que as minhas experiências precisavam recomeçar”.
Pôde receber também um grupo de amigos, já moradores do mundo espiritual que o abraçavam. Entre eles, estavam alguns “irmãos de Taquaritinga”, como padre Vicente Ruffo, Paulo Braghetti, Evaristo Davoglio e Paulo Costantini. O sacerdote católico era amigo de seu pai e viveu em Taquaritinga apenas por 7 anos, de 1898 a 1905, de acordo com anotações de Caio Ramacciotti.
A carta de Domingos Pignatari é um convite à reflexão sobre a vida e a morte. Ele se dirige à sua “querida Elza”, sua esposa, e aos filhos, Mirtes, Júnior, Mirley e Elza Mara, com uma ternura que transcende a barreira entre os mundos. Ele fala da saudade, mas também da fé que o amparou. Ele reforça a importância de valores como a paciência, a coragem e, acima de tudo, a prática do bem. “A maior riqueza é aquela que se acumula no bem praticado”, ele escreve.
A mensagem é um adeus, mas também um “até logo”. Domingos conta que está bem e que reencontrou seus pais, Francisco e Júlia, e outros familiares. A família, ele diz, está se ampliando no plano espiritual. A carta psicografada termina com a promessa de que o amor e a gratidão não se desfazem, e que essa comunicação, mesmo sendo curta, é um conforto que o alegrou imensamente.
A história de Domingos Pignatari, trazida à luz pelo querido Chico Xavier, nos lembra que as pontes entre o passado e o presente, entre a vida e o que chamamos de morte, podem ser mais fortes do que imaginamos. E que, no fundo, a maior riqueza de um homem é o amor que ele deixa e a bondade que semeia.
Imagem: Reprodução














