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Nada é mais subjetivo que a arte de escrever. Basta reler o texto uma vez e o autor já vai fazendo mudanças, trocando palavras, expressões ou até mesmo frases inteiras. Se passar os olhos pelo que escreveu, quatro ou cinco vezes, em todas fará mudanças.

Isso acontece até quando o texto já está publicado. Não é raro, no caso do cronista, pegar a página e, usando uma caneta azul, fazer rabiscos e anotações nas margens, lamentando não os ter feito antes. Isso quando não interceptamos a publicação antes de ela ir para o prelo, implorando ao editor que providencie a alteração desejada.

Tanto cuidado que se dedica ao um simples texto reflete o respeito que se tem pelo leitor, que sempre merece o melhor. Mas isso é só uma parte da verdade. A outra razão está na vaidade que todo escritor tem, um perfeccionismo que beira a obsessão, como se cada palavra escolhida fosse um espelho da própria alma –e qualquer imperfeição, uma falha exposta ao mundo.

Ocorre que, já faz um tempo, a maioria dos jornais e das revistas de papel não existe mais. Assim como as notícias e as fotografias, as crônicas estão disponíveis apenas na versão digital. Então, o jeito é imprimi-las para a leitura ao modo antigo. E como é mais confortável ler assim, sentir-se um pouco analógico nesse mundo digital.

Sou do tempo das máquinas de escrever –tenho até diploma de datilografia. Batuquei minhas primeiras letras em uma Olivetti. Depois usei uma elétrica, em que se podia trocar um disquinho de fontes para se ter uma tipologia diferente: com ou sem serifa, itálico ou normal.

Não demorei muito para fazer a migração ao computador, ainda com aqueles monitores de fósforo verde. A evolução foi rápida, tão rápida e sem sobressaltos que nem percebi que estava vivendo uma transformação tecnológica que nos apresentaria uma nova era.

O jeito de escrever, no entanto, continuou como antes. A mesma dedicação quanto à seleção das palavras, o zelo para transpor um pensamento para a tela e o cuidado com a métrica dos parágrafos. O autor seguiu batucando em um teclado, com uma diferença: dá para corrigir sem deixar rasuras –essas ficam mesmo para a versão impressa, caso o autor tenha condição de imprimir o texto por conta própria.

E talvez o mais curioso de tudo seja perceber que esse impulso de revisão não se limita ao que nós mesmos escrevemos. Quem vive da palavra escrita –ou por ela se apaixona– acaba desenvolvendo um olhar de revisor que não desliga nunca. Lemos um livro, uma reportagem, um post qualquer nas redes sociais, e lá está o nosso instinto cutucando: “Essa vírgula podia estar em outro lugar”, “esse parágrafo funcionaria melhor se viesse depois”, “eu teria dito isso de outro jeito”.

Não se trata de arrogância –ou, pelo menos, não só. É a força do hábito. É o ofício que vai se entranhando na gente até moldar o modo como enxergamos o mundo. Passamos a ver não apenas o que está escrito, mas o que poderia estar. Reescrevemos mentalmente os outros como reescrevemos a nós mesmos. E, no fundo, talvez seja esse o traço mais íntimo do escrever: uma eterna insatisfação com o que está pronto. Uma esperança silenciosa de que sempre se possa dizer melhor.

Os vestibulandos, em breve, saberão do que estou falando. No fim das contas, redigir é um rascunho infinito.