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O Brasil precisa de equilíbrio

Está crescendo o número de pessoas –pelo menos com as quais converso– que acham que o país precisa voltar ao normal quando se trata de política. Nessa linha, o exemplo que surge sempre é a figura do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Esse sim foi um verdadeiro estadista, homem culto, vindo da universidade.

Naqueles meados da década de 1990, quando FHC chegou ao poder, a sensação que tive foi a de que o país amadurecera, depois do solavanco provocado por outro Fernando, esse de nada saudosa memória, o primeiro eleito depois de uma ditadura longa e triste.

O pai do Plano Real criou uma moeda forte, deu estabilidade à economia e esperanças de que não havia espaço para passos atrás. Triste engano. Retrocedemos em vários aspectos e mergulhamos num poço em que não sabemos se o fundo já chegou.

A polarização política que dividiu o Brasil também rachou famílias e afastou amizades. Corrupção, prisões, “descondenações”, ataques às instituições, ameaças à democracia e outras coisas mais.

Com as eleições, ninguém chega ao poder pela porta dos fundos. Isso é bom, mas dá medo. Medo porque a ascensão de um político ou outro reflete o nível de esclarecimento, cultura e educação dos eleitores. Para o bem ou para o mal, o axioma “cada povo tem o governo que merece” é verdadeiro.

O Brasil precisa reencontrar o caminho do equilíbrio. Chega de extremismos que apenas alimentam o ódio, a intolerância e o atraso. Não há democracia saudável onde impera a gritaria, o culto à personalidade ou a criminalização do pensamento divergente. É urgente resgatar a política como espaço de diálogo, racionalidade e construção coletiva, onde o foco esteja no bem comum –e não em projetos personalistas de poder.

Fernando Henrique Cardoso simbolizou, em grande medida, esse momento raro da nossa história em que a razão teve mais espaço que a paixão cega. Professor, sociólogo e intelectual respeitado internacionalmente, governou com firmeza e serenidade. Não prometeu milagres, mas entregou resultados. Seu governo dialogava com o Congresso, com a imprensa, com a sociedade civil. Havia conflitos, sim –e como não haver?–, mas havia também um compromisso com a institucionalidade e com o futuro do país.

Precisamos resgatar esse espírito. O Brasil precisa de líderes que não temam a complexidade, que rejeitem soluções fáceis e populistas, e que compreendam que governar é, sobretudo, servir. Chega de bravatas, chega de heróis messiânicos e de vilões imaginários. A política não é palco de guerra, mas de conciliação.

Se não recuperarmos esse senso de responsabilidade coletiva, continuaremos andando no fio da navalha, entre retrocessos institucionais e crises intermináveis. E o país, que já provou que pode mais, continuará prisioneiro de ciclos que não levam a lugar algum. Equilíbrio, bom senso e diálogo não são fraquezas: são a única saída possível para uma nação que ainda deseja ser grande.

Foto: Agência Brasil