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Bebê reborn 5G

A reportagem mostrava uma mulher empurrando um carrinho de bebê com um zelo comovente. Lençol bordado, travesseirinho de nuvem, móbile de bichinhos de feltro. O repórter se aproximou simulando um gesto espontâneo – meio afetuoso, meio curioso, mas tudo estava combinado entre ele e a entrevistada –, um gesto de quem quer ver se o neném tem bochechas rosadas. Mas era um bebê reborn. E tinha nome: Rafael.
Um bebê de borracha, deveras caro, feito para parecer humano até no peso. Perfeito para quem quer um filho que nunca diga “não”, nunca chore à noite com febre ou medo de escuro, jamais precise de antibiótico ou inventará uma doencinha matinal para faltar da escola.
No século passado, Rubem Braga escrevia sobre passarinhos na janela e moças que passavam na rua com a leveza de quem observa o mundo com olhos de poesia. Se vivesse hoje, para manter-se atual, talvez trocasse os passarinhos por bebês de silicone e as moças por algoritmos inteligentes.
Sim, porque agora temos os bebês realistas, essas criaturinhas de vinil que, com um pouco de inventividade, são tratadas como filhos de verdade. Há quem lhes dê mamadeira, troque fraldas e até comemore o “mesversário” com direito a bolo e vela. Alguns os levam ao pediatra, outros os colocam para dormir com canções de ninar.
Profissionais de saúde mental se manifestam nas redes condenando esses comportamentos. Se um ou outro vê nisso uma forma de terapia, a maioria enxerga um sintoma de algo mais profundo. Mas, como diria o papa da crônica brasileira, “a vida é feita de pequenas coisas”. E se uma dessas coisas é um bebê de silicone que sorri quando você chega em casa, quem somos nós para julgar?
Já vi muita mulher adulta carregando uma boneca pelas ruas, mas sabia que ali ia uma pessoa reconhecidamente diferente, cuja idade mental não condizia com a do registro de nascimento. Agora, a modernidade não nos permite mais fazer essa análise apressada.
Como tudo hoje em dia, isso pode evoluir ainda mais. E se já temos carros autônomos e assistentes virtuais, por que não um bebê hiper-realista com inteligência artificial integrada? Imagine só: o Bebê Reborn 5G, com Wi-Fi embutido e atualizações mensais a preços módicos.
Certamente os visionários do Vale do Silício ou da China já estão gerando, em suas incubadoras altamente tecnológicas, a nova geração desses bebês. Senhoras e senhores, não demorará para serem paridos os bebês IA, e o enredo do filme “Inteligência Artificial” (2001) pulará para o mundo real.
Viveremos para ver uma start-up internacional colocar no mercado versões atualizadas e mais “interativas” desses filhos de vinil. Haverá modelos programáveis conforme o desejo dos pais: chorão clássico, risonho constante, ou o bebê “filósofo precoce”, que aos dez meses poderá dizer frases como “Nietzsche estava errado” ou “o ser é um projeto em direção ao nada”, com voz fofa e sotaque de app de meditação.
Os modelos top de linha oferecerão upgrades personalizados: trilinguismo instantâneo, senso de humor calibrado por algoritmo e até um “modo carente”, que envia mensagens durante o expediente dizendo “mamãe, sinto saudades do seu colo” — com emoji e tudo. Não seria mais assustador, porque normalizaríamos.
Tudo isso, claro, sincronizado com a Alexa, o Spotify e o humor do mercado financeiro. O bebê IA dormirá ao som de Claude Debussy se detectar ansiedade no ambiente, e pedirá aumento de mesada (via Pix automático) ao notar que o pai lucrou com ações da Tesla. As escolas terão de aceitá-los? Talvez, mas só por uma questão de socialização.
Imagine a cena: pais orgulhosos levando o bebê para a festa de aniversário, rodeados de bexigas e docinhos. Entre uma piscada e outra, o menino de quinta geração solta: “A festa está linda, mamãe. Obrigado. Fiz um haicai em sua homenagem.” Tudo com voz doce, embalada por sensores e chips do tamanho de um botão de camisa.
É impossível não lembrar, de novo, do velho Rubem Braga, que olharia tudo isso com aquele misto de ironia fina e ternura desconfiada. Talvez dissesse que esses bebês não têm cheiro de talco nem de susto. Carecem de alma, os filhos do silêncio – não aquele bonito, que mora entre uma palavra e outra, mas aquele que existe entre uma linha de código binário e uma lágrima programada.
Braga entenderia. Ele sempre teve um fraco pela loucura mansa das pessoas que tentam amar o que é inanimado, como quem conversa com uma planta ou escreve cartas para a Lua. Se estivesse entre nós, certamente se recusaria a comprar um boneco só para levá-lo ao Largo do Machado e ver a reação dos pombos. Iria sozinho para observar as mães imaginárias e, de volta ao apartamento, escreveria uma crônica dizendo que a solidão agora tem Bluetooth, mas continua sendo solidão.
Ressalvaria o escritor que, talvez o Bebê Reborn 5G não fosse tão diferente assim de um passarinho na janela. Ambos estariam lá para nos lembrar que, mesmo em um mundo cada vez mais artificial, ainda buscamos conexão, afeto e um pouco de ternura.