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Por Luís José Bassoli

A grande questão acerca da escolha do sucessor do papa Francisco é se seria um pontífice “progressista”, a dar continuidade ao processo adotado por ele, ou um “conservador”, a estancar o processo – ou até implantar um retrocesso.

O tempo dirá, mas há sinais, signos, simbologias.

Jorge Mario Bergoglio nasceu na Argentina, um latino-americano nato; Robert Francis Prevost nasceu nos EUA, trabalhou 40 anos no Peru e adotou, também, a cidadania peruana, é um latino-americano por opção.

Bergoglio assumiu o nome papal Francisco, que é a tradução de Francis, nome de batismo do papa Leão 14.

O Frei Leão (século 13), antecessor dos papas “Leões”, era o braço direito de São Francisco de Assis, que inspirou Bergoglio a adotar o seu nome papal.

O papa Leão 13, que antecede o Leão atual, foi eleito no século 19, na recém-revolução industrial;
crítico do socialismo marxista e do capitalismo irrestrito, defensor da coexistência ciência/religião, abriu os Arquivos Secretos do Vaticano para pesquisadores e exigiu o estudo de São Tomás de Aquino (que fazia a “ponte” com a filosofia grega).

Opositor da escravidão, concedeu a condecoração pontifícia “Rosa de Ouro” à Princesa Isabel, por ocasião da abolição da escravatura no Brasil (1888).

Leão 13 escreveu a encíclica Rerum Novarum (Das Coisas Novas), fundamental no desenvolvimento da Doutrina Social da Igreja, questionando a exploração dos trabalhadores pelos novos empresários.

Tal ensinamento se estendeu à encíclica Laudato si’ (Louvado sejas), do papa Francisco, de 2015, que critica o consumismo irresponsável e roga pela defesa do meio ambiente.

Leão 14 é eleito em meio à “4.ª Revolução Industrial”, caracterizada pelo rápido avanço tecnológico, e à crescente onda global de políticos de extrema-direita.

Assim como o Leão anterior, o atual se debruça sobre questões político-econômicas e sociais, pediu o fim da “guerra de palavras” dos ataques partidários-ideológicos, para barrar o avanço do fanatismo, criticou a política trumpista de expulsão em massa dos imigrantes e abordou, diretamente, a Inteligência Artificial (ápice da 4.ª Revolução Industrial), alertando que tem que ser usada com “responsabilidade e discernimento”.

Santo Agostinho (Créditos: Vatican News)

SANTO AGOSTINHO
Leão 14 pertence à Ordem Agostiniana, seguidores de Santo Agostinho (nascido no ano 354, na África), que teve uma vida desregrada, até ser influenciado por Santo Ambrósio, formando-se professor, filósofo e bispo da Igreja Católica – é o Padroeiro dos Teólogos.

SANTO AGOSTINHO E CARL JUNG
A obra principal de Santo Agostinho, Confissões, é considerada uma espécie de “terapia psicanalítica”, séculos antes da “invenção” da psicanálise por Sigmund Freud, na qual revela seu passado obscuro, pede “perdão” e explica suas decisões de mudar – seus leitores e fiéis seriam seus “psicólogos”.

Uma das frases da obra Confissões, “Feriste meu coração com a tua palavra e eu te amei”, é tida como declaração de amor a Deus, sugere que a “Palavra”, i.é., a verdade e a revelação, tocaram seu coração, o fizeram rever seus conceitos e partir para ações concretas, baseadas na piedade e compaixão.

Séculos depois, o psicanalista Carl Jung, discípulo de Freud, cunhou a frase “O Self nos fere para nos despertar”; para Jung, “Self” representa a unificação do consciente e do inconsciente, o centro da psique, a força integradora que busca o equilíbrio entre os diferentes componentes da mente.

Essas teses de Agostinho e Jung se interagem no sentido de que é preciso nos voltarmos pra dentro de nós e, “de dentro pra fora”, encontrar a “verdade”, a “revelação”, o “despertar” para uma vida digna e honrosa.

Jung sustenta que os símbolos são elementos fundamentais à Humanidade, representam padrões universais, que transcendem culturas e indivíduos; portadores de energia psíquica, os símbolos expressam a existência do “Inconsciente Coletivo”, uma “reserva de experiências e padrões comuns” a todo ser humano.

Papa Francisco (Foto: Câmara dos Deputados)

CONCLUSÃO
O cardeal Robert Francis Prevost é visto como “moderado”, não tão progressista como Francisco, tampouco conservador como João Paulo 2.°.

À vista de tanta simbologia envolvida, não seria descabido “prever” que o cardeal Francis Prevost, como papa Leão 14, será moderado em pautas de “costumes”, como sexualidade e outros dogmas correlatos (à moda de Santo Agostinho), e progressista em temas “sociais” (a exemplo de São Tomás de Aquino e dos papas Leão 13 e Francisco).

(Apud: Frei Betto; Felipe Pena; VaticanNews).

Luís José Bassoli é advogado, graduado pela Universidade Mackenzie, formado pela Escola de Governo de SP, pós-graduado em Didática pela Unip, professor de Geopolítica do Colégio Objetivo, ex-professor de Comércio Internacional da FATEC e colaborador do Tribuna.