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Palavras

Uma pessoa amiga me perguntou outro dia como comecei “a escrever profissionalmente”. Ela queria saber, na verdade, de que forma escolhi a carreira que me sustenta até hoje. Contei-lhe resumidamente, e aqui dou mais detalhes. Recém-saído da infância, já decidido a ser jornalista, dei de cara com um problema: não conhecia muitas palavras, além das básicas que usava no dia a dia. Não raro, reproduzia pronúncias erradas da fala acaipirada, típica do interior e do ambiente em que fui criado.

Quando ia pôr uma ideia no papel, demorava muito e quando terminava, era uma decepção total – ou parcial. Percebia que no meio do texto eu mudara de assunto e não escrevera nada do havia pensado no começo. Faltava, portanto, também foco. Era de fato um problema, porque sair do tema é um dos fatores que reduzem a nota na redação dos vestibulares.

Foi aí que descobri que não teria outro jeito: eu precisava ler. Só a leitura poderia me salvar do beco sem saída a que o meu parco vocabulário me levava. Mas a prática demandava tempo, e eu queria era jogar futebol com os amigos.

Quando já estava acreditando que o dilema seria resolvido com rapidez, eis que surge um outro. Topava com termos cujo significado eu não tinha a menor ideia. Sorte que em casa existia o “Novíssimo Dicionário Ilustrado Urupês”, do professor Aires da Mata Machado Filho, um respeitável tratado publicado quatro antes do meu nascimento, tão pesado que meus braços franzinos mal conseguiam sustentar.

Com suas 1.123 páginas, o dicionário era um portador de segredos, além da foto de uma jovem indígena nua – eu pulava a página porque era pecado ficar olhando gente sem roupa, conforme decretara a professora de catequese. Comecei a aprender palavras mais raras, aquelas que, ao se sobressaírem dentre as corriqueiras, dão a impressão de que o escritor é grande coisa.

Comecei a ver o mundo de outra maneira. Até nas conversas dava um jeito de encaixar um ou outro termo mais rebuscado, mas com cuidado para não parecer pedante. As palavras, com o tempo, não só me ajudaram a escrever melhor, como também a me compreender melhor.

Foi então que fui presenteado com um exemplar da primeira edição do Manual de Redação do Estadão, do grande Eduardo Martins – e autografado pelo Augusto Nunes, o jornalista que na época era diretor do tradicional diário paulista e assinou o prefácio. Esse livro vale por um curso de jornalismo, com informações preciosas sobre geografia, história e, claro, língua portuguesa. O último capítulo – Escreva Certo – me fez grandes revelações sobre cedilhas, ésses dobrados, xis, ch e outras idiossincrasias do idioma. Li e reli o manual inúmeras vezes.

A maior epifania aconteceu quando percebi que a solução não era apenas reter um vocabulário robusto. Seria necessário descobrir o uso que se pode fazer dele e, sobretudo, ter noções de contextualização. A sintonia da frase, a coerência, a cadência das palavras, o encaixe preciso das ideias: esse conjunto constitui a chave da escrita perfeita – a que jamais chegarei, como sabem os meus leitores.

As mesmas palavras, que um dia me escapavam como areia entre os dedos, hoje me abraçam, me sustentam e me dão a certeza de que, por mais difícil que seja colocar uma ideia no papel, a jornada para encontrar o significado delas mudou o curso da minha vida. Parafraseando Carlos Drummond de Andrade, também “sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas”. E levo a vida apaixonado pelo meu sempre insuficiente repertório.

(Imagem gerada por IA)