Somos todos medalhistas
O campeonato da vida começa na concepção, conforme aprendemos nas aulas de biologia lá na 5.ª série. Somos o espermatozoide mais ágil. Entre milhões, um deles (nós) corre para chegar na frente e encontrar o óvulo que está lá, no bem bom, à espera da fecundação. O primeiro pódio da vida são as trompas, onde o zigoto – esse é o nome genérico do(a) atleta – recebe sua primeira medalha de ouro. Sem choro ou briga, gêmeos, trigêmeos ou mais dividem o prêmio da olimpíada organizada por papai e mamãe.
Com ou sem uma abertura festiva, mas geralmente com animadas preliminares, esse é o início de uma competição da qual já saímos condecorados. A ciência e as religiões ainda são inconclusivas quanto ao momento em que a alma se fixa ao embrião, mas é fato que ela anima todo ser vivo até o último suspiro. Eis aqui outra vitória: o sopro da vida, que pode nos conduzir a tantas outras conquistas.
Mas a partir de agora a coisa fica mais séria. Viver é um torneio de desempenho que não abre muitas brechas para treino. As falhas graves podem custar a desclassificação, embora geralmente a todos é dada uma segunda chance. Ser um atleta de alto rendimento ou só bater uma bolinha no fim de semana é uma questão de escolha.
O resultado depende de algumas variáveis, a principal delas são aquelas coisas que entendemos como símbolo de sucesso. Para uns, o progresso material pode ser o sinal inequívoco de que “venceu na vida”, enquanto outros acreditam que a evolução espiritual é o que vale. Claro que uma não exclui a outra.
O barato da vida é o que fazemos dela no intervalo entre a chegada e a partida. Quantas pessoas nascem cercadas de riqueza e oportunidades, mas ignoram os presentes recebidos. Conheço um monte de gente que fez tudo certo para dar errado. Colheram o que de pior o mundo pode oferecer, para a tristeza dos pais. Mas tem quem veio em condições adversas, com a régua lá em cima, e nem por isso desistiu. Ao contrário, levou todas as medalhas possíveis.
O maior destaque brasileiro nas Olimpíadas de Paris é um exemplo. A ginasta Rebeca Andrade, negra, filha de empregada doméstica, criada sem o pai junto com seis irmãos, é um retrato de tantos que souberam aproveitar seus talentos. As dificuldades dela foram muitas, a começar pela falta de dinheiro para ir aos treinos, em Guarulhos, a cidade onde nasceu. Os obstáculos não a impediram de brilhar.
Existem muitas Rebecas por aí, em todas as profissões. Ostentam belos troféus, sem menosprezar os que ficaram pelo caminho, mas os estimulando a continuar tentando. O caminho do pódio é sempre esse, seguir repetindo os exercícios até à perfeição. Quem atingir as metas principais sem trapacear já terá honrado aquele encontro que gerou o impulso inicial, a nossa primeira medalha de ouro.










