Mesa farta de sotaques
Nesta época do ano, em muitos quitutes juninos, é indispensável o cravo da Índia, especiaria de sabor marcante. Salpicar canela da China sobre o curau é questão de gosto.
Um doce ao qual não resisto são as fatias húngaras. Quando decido fazer em casa, capricho no recheio, com bastante coco da Bahia ralado.
Há quem utilize esse ingrediente em vários pratos, como a bala baiana, em que é imprescindível. Mas a autêntica pamonha de Piracicaba tem não coco, porque é o puro creme do milho verde, como diz a propaganda.
Esse grão versátil, aliás, é a matéria-prima do cuscuz nordestino. A iguaria é outra que não pode faltar nas fartas mesas comemorativas aos santos Antônio, João e Pedro, que se estendem por todos os meses de inverno.
O tempo frio, por sinal, chama por um autêntico queijo da Canastra ou um queijo Minas. Nem um deles, porém, faz parte da tradicional e lusitana queijada de Sintra.
Por falar nas terras de além-mar, a pizza portuguesa está entre as mais pedidas. É uma delícia, assim como o pastel de Belém, cuja receita original é restrita a poucas pessoas, como a fórmula da Coca-Cola.
Seguindo pelos nomes europeus, não dispenso uma linguiça calabresa acebolada, uma salada Caprese, uma polenta napolitana, um espaguete à Carbonara e, aos domingos, um macarrão à bolonhesa. Como sobremesa, cai bem uma palha italiana.
O Velho Continente ainda nos legou a batata inglesa e o bolo inglês, que evidentemente não combina com molho inglês, mas vai bem com creme belga.
Lembrando da Bélgica, vem à cabeça a couve de Bruxelas. Salteadas, são um ótimo acompanhamento. E que tal um bom pedaço de cuca alemã? E quem é capaz de ficar indiferente a uma fatia de torta holandesa? Comeria até sem fome.
O autêntico bacalhau da Noruega leva boas quantidades de azeite – espanhol ou português. Já em um estrogonofe não deve faltar o cogumelo Paris. De quebra, uva Itália lambuzada com creme de chocolate suíço.
Nunca entendi a razão de os vendedores de crepe suíço escreverem suísso nos trailers (assim, com “s” dobrado). Errando a grafia, tudo bem, contanto que acertem o ponto da massa.
Não sou chegado a bebidas alcoólicas, mas preferiria uma cachaça de Salinas a um uísque escocês. Por falar nas Minas Gerais, cresci saboreando a torta mineira da minha mãe, que leva abacaxi e – olha ele aí de novo – coco da Bahia, agora em flocos.
Os pratos regionais do Brasil são mesmo insuperáveis. Ninguém deveria morrer sem experimentar o empadão goiano, o escaldado cuiabano e a moqueca capixaba, por exemplo. Uma moqueca de peixe, aliás, é uma preparação que combina com molho espanhol.
São Paulo exportou para o país inteiro o legendário virado à paulista, que, aliás, leva feijão carioca. Como gostamos muito de toques cítricos, são indispensáveis em qualquer fruteira os limões Taiti e siciliano e a lima da Pérsia.
Dos vizinhos, importamos o porco paraguaio, que demora no mínimo doze horas para ficar pronto. Quem fizer, me convide – me encarrego de levar a salada marroquina ou a salada russa e algumas laranjas baianas. Para fechar o cardápio, um pudim das Antilhas, que leva bananas maduras e docinhas.
Dentre os lanches cujos nomes importamos de terras longínquas temos o de lombo canadense no pão australiano. Mas eu prefiro o churrasco grego no pão francês. De manhã, uma panqueca americana com mel de abelhas africanas.
Talvez o nosso arroz à grega não seja apreciado na Grécia. Mas certamente as coxinhas douradas de Bueno de Andrada agradariam gregos e troianos.
Diz o ditado que comer uma maçã argentina por dia acrescenta um dia na vida. E, se a castanha do Pará combate mesmo o envelhecimento precoce, descobri a fórmula da vida eterna.
Já tomei maca peruana, em razão dos inúmeros benefícios para a saúde. Enganado. A maca não é mais um produto do Peru, agora vem da China, como quase tudo neste mundo.
Já que o assunto é longevidade, o Japão não pode ficar de fora. É com arroz japonês que se faz o sushi Filadélfia, assim como os demais que caíram no gosto dos brasileiros. Nem a ONU faria tão harmoniosa junção de continentes.
Nessa profusão de sabores, não confunda: mamão Formosa, apesar do nome, não vem do estado goiano. Mas, veja lá, o pequi de Goiás pode vir do norte de Minas. Ele também é muito apreciado em Mato Grosso do Sul.
Todo cuidado com a gula, um dos sete pecados capitais, até mesmo quando se faz arroz do Vaticano, aquele que fica papa. E se alguma coisa não cai bem no estômago, corra para o quintal e pegue algumas folhas de boldo do Chile. O fígado, que não respeita fronteiras, agradece.
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